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Última
actualização
15-07-2004
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Dicas

Drogas Anabolizantes: Situação actual
Dr. José Maria Santarém
* Médico Pesquisador Doutor
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Coordenador do CECAFI - Centro de Estudos em Ciências da Actividade Física /
FMUSP.
Estamos vivendo hoje, com
relação às drogas anabolizantes, uma situação semelhante à que ocorreu com o
tabagismo no início do século: a utilização por grande número de pessoas
aparentando boa saúde tende a estimular a noção de segurança. O cinema pode nos
dar uma ideia de como era difundido o hábito de fumar. Filmes da época quase que
invariavelmente mostravam os artistas fumando. Mais de cinquenta anos foram
necessários para que as estatísticas da incidência de doenças pudessem ser
feitas, e graças à esses dados, hoje está bem estabelecido que o fumo produz
diversos males à saúde. Mesmo assim, muitos continuam fumando. Os fumantes
doentes estão nos hospitais, em casa, ou já não estão entre nós, enquanto que as
pessoas que fumam em público aparentam boa saúde. Geralmente muitos anos de
tabagismo são necessários para que ocorram doenças graves, e mesmo assim não
ocorrerão em todas as pessoas. E antes de adoecer, as pessoas terão fumado em
público durante muitos anos com aparente boa saúde.
No caso das drogas
anabolizantes, geralmente esteróides androgênicos derivados da testosterona, as
estatísticas ainda são precárias devido a que a sua utilização por parcelas
consideráveis da população é relativamente recente. Os estudos experimentais,
nos quais drogas são administradas pelos pesquisadores e seus efeitos analizados,
sempre com conclusões mais confiáveis, são dificultados no caso de anabolizantes
hormonais em pessoas saudáveis por razões éticas. Alguns trabalhos experimentais
são encontrados na literatura, envolvendo a utilização de esteróides
anabolizantes para o tratamento de doenças como anemias, alguns tipos de câncer
e reposição hormonal.
Também existem trabalhos
experimentais estudando os efeitos de derivados da testosterona com o objectivo
de contracepção masculina. O tipo de trabalho científico mais frequentemente
encontrado sobre o tema são os relatos de casos clínicos, onde o uso de
anabolizantes esteróides é associado à ocorrência de doenças mais ou menos
graves. Esses trabalhos não permitem concluir que a relação entre as drogas e as
doenças sejam do tipo "causa e efeito" mas no mínimo, existe uma acção
desencadeante de alterações patológicas em pessoas predispostas. Estudos
observacionais, transversais e longitudinais, em grupos de usuários de drogas
anabolizantes têm contribuído para a identificação das intercorrências
patológicas mais frequentes.
Em recente pesquisa, um
questionário foi distribuído para 1.667 pessoas em academias do Reino Unido, e
publicado no International Journal of Sports Medicine, 18:557-62, 1992.
Entre os homens interrogados 9,1 % usavam drogas anabolizantes contra 2,3% entre
as mulheres. Drogas injectáveis e orais foram utilizadas, em doses até 34 vezes
as doses terapêuticas. Entre os usuários, apenas 28% eram atletas de competição.
O sistema de ciclos interrompidos foi utilizado por 88% dos usuários, e 77%
relataram ter percebido efeitos colaterais: atrofia do testículo em 56% dos
casos, ginecomastia em 52%, dificuldade para dormir em 37%, hipertensão arterial
em 36%, lesões tendinosas em 26%, sangramento nasal em 22% e resfriados
frequentes em 16%. Entre as mulheres foram relatados casos de irregularidade
menstrual, hipertrofia do clitóris, diminuição das mamas, engrossamento da voz,
acne, queda de cabelo e hirsutismo. Por ocasião da interrupção dos ciclos foram
frequentes os relatos de tonturas, fraqueza, perda da libido e dores
articulares.
Considerando a totalidade dos
trabalhos publicados até o presente, podemos concluir que o uso abusivo de
esteróides anabolizantes apresenta alta incidência de efeitos indesejáveis a
curto prazo, embora nem sempre graves. A longo prazo, doenças graves poderão ser
desencadeadas dependendo das drogas empregadas, do tempo de utilização, das
doses e da predisposição individual.
As drogas de uso oral estão
mais associadas com os tumores do fígado, com a icterícia obstrutiva, com a
formação de cistos hepáticos hemorrágicos, com o desencadeamento da diabetes e
com as doenças cardíacas coronárias. Os mecanismos de doença são o maior
metabolismo hepático das drogas, aumento da resistência celular à insulina e
depressão do HDL - Colesterol. As drogas injectáveis produzem mais ginecomastia
e maior tendência para a trombose, cerebral e periférica, devido à maior
formação metabólica de hormónios femininos estrogénios. O uso de antiestrogénios
em associação com as drogas injectáveis, prática comum entre atletas, não é
aconselhável por diminuir o efeito anabolizante e produzir os mesmos efeitos
tóxicos dos esteróides orais. O fechamento prematuro das linhas de crescimento
nas epífises ósseas dos adolescentes, a hipertensão arterial e o câncer da
próstata têm sido relatados em associação tanto com os esteróides orais quanto
com os injectáveis. Todos os esteróides anabolizantes parecem ser igualmente
úteis para estimular a massa muscular, a força e a redução de gordura, embora
com dosagens diferentes.
Durante o uso dos esteróides
anabolizantes, geralmente em períodos de seis à oito semanas, ocorre acentuada
diminuição da fertilidade, aumento da libido e diminuição da testosterona
endógena. Admite-se que a depressão e a letargia frequentemente relatadas ao
interromper a droga possam estar relacionadas com baixos níveis de testosterona
endógena. A impotência sexual parece ser mais consequência de fenómenos
depressivos, às vezes intensos, e que podem levar ao suicídio. Muitos usuários
ficam dependentes dos esteróides por conta do mal-estar produzido pela supressão
da droga. Frequentemente é necessária a intervenção psiquiátrica. O retorno aos
níveis normais de produções hormonal costuma ocorrer em cerca de três meses após
o fim do ciclo, mas existem relatos de hipogonadismo permanente consequente à
muitos anos de utilização contínua de esteróides anabolizantes. A fertilidade
normal pode tardar de seis meses à um ano, justificando a proposta de utilização
dos esteróides androgênicos como anticoncepcionais masculinos. A utilização de
gonadotrofina coriônica ao final de cada ciclo, também prática comum entre
atletas para estimular os testículos parecer ser normalmente desnecessária e
aumenta a incidência de ginecomastia. Quando constatado o hipogonadismo, o
tratamento com gonadotrofina necessita ser bastante prolongado.
A situação actual pode ser
resumida da seguinte maneira: quem está utilizando drogas está correndo riscos
de saúde ainda não bem conhecidos. Esquemas racionais de utilização são mais
seguros mas não totalmente isentos de riscos. Assim sendo, a decisão deverá ser
sempre uma decisão pessoal. A pessoa deve ponderar os riscos e benefícios e
decidir racionalmente. Aos profissionais compete informar e não influenciar na
decisão.
No caso de atletas de
competição, o uso de drogas transcende a questão da saúde individual. As drogas
que favorecem o desempenho nas diversas modalidades são consideradas eticamente
indesejáveis e portanto ilícitas, independentemente de produzirem danos para a
saúde. Aos dirigentes esportivos cabe coibir o seu uso enquanto prevalecerem as
regras atuais, cuja validade moral poderá ou não mudar com o passar do tempo.
Originalmente publicado
na revista Âmbito - Medicina Desportiva, 31: 15-16, maio/1997
Referências Bibliográficas:
http://www.saudetotal.com.br/exresist.htm
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